Celebração do Imperfeito

Celebração do Imperfeito é um projeto Interdisciplinar de Artes Visuais, que combina fotografia, textos, desenho e manipulação digital. São imagens que repercutem a poética de um encontro possível entre a dimensão finita e o desejo do ilimitado. Com articulações que trazem vestígios otimistas em composições pessimistas, o conjunto ilumina a necessidade de enxergar a potência da vida em sua própria ausência de potência. Celebrar o Imperfeito é atestar a existência deste espaço. As imagens dialogam com certas pressões sobre existir na contemporaneidade, em que parece imperar a busca por eficácia e imediatismo. Acolher a dimensão em que não se tem todas as respostas é aceitar que este é o preço a pagar por se estar vivo. A desproporção entre os desejos ilimitados do ser-humano e a dimensão finita das coisas do mundo faz com que as imagens ofereçam uma perspectiva menor do que aquela que desejaríamos. A esperança oferecida é singela, pequena e passageira, como a vida. São imagens congeladas: não sugerem movimento anterior ou posterior ao instante em que foram capturadas. Instabilidade, perda de direção e angústias são tão necessárias quanto a ordem, as certezas e as conquistas. São ofertas de enigmas, à espera de um processo de significação atribuído por quem as experimenta. Através deste encontro tem lugar uma experiência estética específica, que se relaciona com os limites do ser-humano para perceber com verdade seu próprio presente particular.

1. Conectos

“Conectos” trata do sensível da alteridade. Se existimos a partir do outro, em que ponto começamos, onde terminamos? Este lugar é polivalente, multifacetado. Mas definitivo na formação da condição humana. Desde o princípio, alocamo-nos no desejo daquilo que falta no outro. Este encaixe, apesar de estruturante, não é suave. Nos tira algo também. Nos tira parte do corpo, da liberdade. Mas, ao mesmo tempo, rasgada ironia: é o amor que tem o poder de trançar nossa alma com o corpo, nos dando a possibilidade de viver. Ao amarrar fortemente dois bonecos de madeira, há um híbrido de afetos: união, enlace, desespero, hesitação e perplexidade. A corda dialoga com outros vetores de força, como as cores vibrantes, ou com o semblante dos bonecos, em atitude insuspeita de incredulidade. Cordas que  oscilam entre as funções de um doce cachecol, romântico a ponto de enlaçar o casal tornando-os um só, e de amarras que enforcam, tirando-lhes o oxigênio. Apesar de tanto idílio, desejava o casal estar ali? Que lugar misterioso, este do outro. Ao imaginar as cordas em dúvida sobre qual função deviam desempenhar, quase era possível escutar a voz complexa do amor. Duas vidas que passam a organizar-se como uma, dois corpos que perdem os próprios limites.

2. Flama

“Flama” busca representar algo externo invisível que age sobre dois corpos, como acontece na imagem da Fênix, em que o fogo é responsável pelo renascimento. Que chama é essa em que não é possível atestar a dimensão do seu poder? Ora floral, ora sangue. Em que ponto o fogo deixa apenas de amornar e passa a derreter? Nesse doce duelo do fogo com as figuras, um casal dialoga com este aumento gradual de temperatura, e a potência do fogo mostra-se incerta. Afinal, as Figuras não querem perder seus corpos. Interessa nesta obra um novo termostato do fogo, em que é explorada esta dimensão visceral. Fotografadas com a iluminação de uma lâmpada vermelha, o brilho do material aliado às formas orgânicas dos corpos constrói vísceras quase elegantes. O caos precisa admitir que existe, ainda que não só através da tormenta. Apesar de ser possível captar lampejos de morte, não é unicamente a dor que impera, e nem poderia ser. Para o propósito poético investigado, é fundamental a consciência da alforria que reside em atestar o Imperfeito do Amor.

3. Mulher Prescrita

“Mulher Prescrita” busca investigar uma aura forte de ressentimento pela condição feminina. As imagens não chegam a esmorecer sob esse peso, mas percebe-se um inconformismo que coloca o feminino nesse estado múltiplo, em que coexistem ressentimento e celebração. A escultura quebrada que repousa de olhos fechados sobre um leito orgânico de sangue recebe algo em seu interior: os seus próprios membros cortados. Na imprecisão desse ser que ora parece assassinado ora parece dormir, a mulher tem seu vazio preenchido pelo seu próprio corpo. No entanto, essa ação não está retratada na imagem, vem de fora. Algo simbólico ocupou esse interior pretensamente vazio do corpo, quase à revelia da figura adormecida.

4. Defloração

Em “Defloração”, o trabalho com os cortes das figuras é uma ação que está repleta de intensidade contra algo indefinido. Na construção da mulher que observa com um olhar enigmático o resultado dos cortes, fica iminente o risco de irromper certa brutalidade, algo que corromperia a essência poética de celebrar a condição imperfeita de se estar vivo. A estátua feminina que ostenta a vela-falo está em dúvida sobre a possibilidade de ter ou não cometido um crime, mas o que importa é perceber seu desejo em fazê-lo, ainda que não se regozije com isso. Afinal, a mulher se esconde ou se revela pelo tecido grosso? A imprecisão é vital para que sejam compartilhadas as sensações dúbias da ação do corte. Nesta obra, é importante que as incisões sofridas dirijam-se ao corpo. Mutilando-o com delicadeza, convém ensaiar uma aproximação com a teoria psicanalítica da castração, ainda que através de um viés poético. “Defloração” trata de dar forma a este ressentimento visceral, base do inconsciente feminino. Ao mesmo tempo, a teoria original sublinha uma “confiança insolente” que passa a habitar a mulher, no sentido de que não haverá força capaz de fazê-la desistir de conseguir esse algo simbólico que lhe foi cortado. Para esta obra, o lugar simbólico da mulher é aquele que procura celebrar a falta. É a imagem de um feminino poderoso justamente pela capacidade de dar sentido a algo que, apesar de não lhe pertencer, precisa de sua energia para poder significar-se.

5. Dois

“Dois” trata do misterioso lugar do outro. Duas vidas que passam a organizar-se como uma, dois corpos que perdem os próprios limites. O olhar derretido traz a imagem da consequência de um fogo prévio, que apesar de ter sido intenso, pode violentar. Dependendo do ângulo em que era disparado o clique, alguma luz brotava sobre os dois, e quase podiam comemorar esta fusão. Expandimo-nos no território da existência do outro, irrigando-o com nossos desejos, agora ampliados para áreas além do nosso corpo. Quanta beleza, o amor. Para onde vai esse ser que teve a coragem de aceitar doar pedaços do seu corpo e alma a outro ser?

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